segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Desmistificando a cultura japonesa I




Tenho percebido que alguns praticantes de arte marcial japonesa, alguns inclusive do karate, que após iniciarem sua prática fazem um esforço muito grande para conhecer a cultura japonesa. Acho muito interessante esta curiosidade. Gosto que as pessoas se interessem pela cultura japonesa, porem percebo que algumas pessoas extrapolam alem da conta.

O que percebo na maioria das vezes é que se tem uma visão muito estereotipada da cultura japonesa, se acredita em muitos mitos, coisas do tipo, ninja, samurai, kabuki, harakiri, gueixas, enfim, coisas que são apenas 10% da cultura japonesa e mão fazem parte do cotidiano nem dos imigrantes japonese e nem mesmo dos próprios japoneses que vivem no Japão. Algumas pessoas são verdadeiras enciclopédias ambulantes de “cultura japonesa”, sabem o Bushido de cabo a rabo, sabem aspectos da cultura que eu nunca sequer tomei o conhecimento, mesmo convivendo 36 anos com membros da comunidade japonesa. São tão fanáticos pelo Japão que são capazes de se dizerem mais japonês que meu pai que veio para o Brasil na década de 60. Costuma a chamar estes pessoas de “Japoneses honorários”, são japoneses sem nunca terem ido para o Japão e sem nunca terem contato com membros de comunidade japonesa (o Brasil possui a maior colonia japonesa do mundo não é tão dificil assim).

Sei que recebo várias criticas dos “Japoneses honorários” principalmente acusações de que não entendo nada de karate* ou de cultura japonesa, ou de história do Japão, dão a entender que eu tenho que estudar, etc. Sim, eu não vivo no Japão, vivo no Brasil, não posso ter ideia do como é o Japão, porem já tive convivência com membros da comunidade japonesa e conheço pessoas que já foram para o Japão a trabalho e atualmente tenho colegas Curso de Japonês que estão no Japão e colegas de karate treinando em Dojos de universidades japonesas, tambem conheci universitários japoneses que vieram ao Brasil por intermédio de intercâmbios, todas estas pessoas me trazem novas informações do Japão e enriquecem meu entendimento da cultura. Gosto de tudo que envolva a cultura japonesa e a história do Japão, porem eu sei em qual conteúdo devo confiar, pois existe muita bobagem escrita por ai sendo tomada como verdades talhadas em pedra.

Peço desculpas aos tantos que vieram aqui no meu blog e não gostaram de algumas coisas que escrevi. Mas entendam, eu não tenho certas ilusões que vocês “japoneses honorários” tem a respeito das coisas que dizem respeito ao Japão e a sua cultura. Outra, as coisas que sei, eu realmente sei porque assim como vocês eu tambem gosto e sou aficionada por tudo que diga respeito ao Japão. Desculpas não ter estudado nas mesmas fontes de mitos japoneses e bobagens niponicas que vocês estudaram, pois eu sei que 90% disto são visões distorcidas do Japão. Sinto muito não compactuar com o roll de besteiras de vocês.

Gomennassai!

Desculpas por minha ignorancia, eu não consigo aprender este monte de besteiras que publicam em seus blogs, eu tento, mas não consigo, é dificil acreditar em vocês...

Enfim, vamos desmistificar a cultura japonesa:

  1. Todo o japonês é exemplo de polidez e educação:

Quem afirma isto nunca viu um japonês comendo, quanto mais barulho, melhor, quanto mais arrota, melhor. Minha irmã esteve no Japão e nos dias de finados foi com minha tia (tadinha, morreu logo após do tsunami de câncer) no cemitério, primeiro que os japoneses montam o maior piquenique em cima dos túmulos, depois minha irmã disse que viu minha tia comer, comer, comer e no final dar um sonoro arrotão que ecoou pelo cemitério. Eles tambem tem gazes, arrotam e peidam, e como peidam;

  1. Japoneses são recatados, corretinhos:

No geral eles são. Porem alguns vislumbrados pelo Japão nunca ouviram falar que no Japão existem tarados. Volta e meia surge algum tarado nos trens japoneses, e são tarados mesmo, de se aproveitarem do fato do trem estar lotado para passar a mão na genitália das mulheres que pegam trens, a mão vai por tudo. As pessoas mais taradas e mais safadas que conheço são japonesas. As coisas mais bagaceiras que vi foram por intermédio da cultura japonesa;

  1. Japoneses são honestos e tem palavra:

Geralmente são, porem já conheci japoneses trambiqueiros, muito trambiqueiros. Só que a forma de eles passarem a conversa nos outros é bem sutil. Nem vou entrar em maiores detalhes, mas posso dizer qual japonês (e nipo-brasileiro) no meio marcial que conta um monte de historinha enquanto alguns vislumbradinhos comem tudo com farinha;

  1. Todo o japonês pratica karate:

Meu pai e a maioria da colonia japonesas do Rio Grande do Sul não pratica karate, até me admiro quando vejo um nissei praticando karate no estado, posso contar nos dedos de uma mão os quantos eu vi até hoje. E no Japão tambem, alias, até tem épocas em que alguma arte marcial estrangeira vira moda, os japoneses adoram Boxe por exemplo, tenho diversos mangas** com histórias de lutadores de Boxe, Muay Thai, Kickboxing. E depois do Pride, as artes marciais japonesas no Japão tiveram uma boa queda;

  1. todo o japonês come com hashi:

Outro dia fui num almoço da Associação Cultura Japonesa - RS com alguns colegas do curso de japonês comer um Yakisoba. De repente noto algo curioso, enquanto meus colegas brasileiros estão concentrados no uso de hashi (outros literalmente levando uma surra de palitinho), olho para o lado e percebo que a maioria dos japoneses e descendentes de japoneses comiam de garfo e faca. Não aguentei, tirei os palitinhos da mão de meu colega, fui até a cozinha peguei uma garfo e faca e entreguei pra ele. Falei: Para de pagar mico, tu ai apanhando pra comer de hashi e a japonesada de garfo e faca... E no Japão tambem, já existem restaurantes com comidas não japonesas, eles tambem usam colher garfo e faca de vez em quando, e a Pizza Hut eles não vão comer com hashi;

  1. Todo o Japones usa kimono:

Desde a era Meiji o japonês não usa kimono diariamente, desde esta época as roupas ocidentais passaram a cada vêz mais a fazer parte do cotidiano. Kimono virou roupa para eventos especiais, festas (matsuris), eventos tradicionais, casamentos, etc. O mais comum são os kimonos de verão (Yukata), existem kimonos mais formais para casamentos, existem kimonos para comemorar a maior idade (Furisode) que ocorre aos 20 anos, etc. Geralmente este kimonos mais caras são alugados. Os kimonos são trages formais, são vestimentas caras até mesmo para um japonês;

  1. Todo o japonês é um samurai ou é descendente de samurais:

É mais fácil um japonês ser descendente de camponeses, de pescadores, de comerciantes do que de samurais, na época que existiam samurais estes eram somente uns 10% da população, não era tão fácil encontrar um samurai na rua;
  
  1. O Japão é a terra dos ninjas:

É mais fácil tu achar um kapa caminhando na beira de um lago do que achar um ninja na rua. Não, não é porque eles estão escondidos, é porque eles não existem mais. Existe até um mestre de ninjitsu, mas ele não chegou a aprender tudo com seu mestre pois ele morreu antes, portanto aquele ninja dos filmes (que por sinal é pura ficção) tu não vai encontrar mesmo, alias tem mais "ninja" (os que se acham) no Brasil do que no Japão;


  1. Existem gueixas andando nas ruas do Japão:

É mais fácil ver mulher fantasiada de gueixa para tirar fotos com turistas, serviço de gueixa é para uma minoria, para uma elite, para um público restrito;

  1. Todo o Japonês é seguidor do bushido e hoje existe samurais do seculo XXI:

É mais fácil o japonês ser fã da Lady Gaga e da Madonna, é mais fácil o japonês seguir o “caminho da força” e se tornar um cavalheiro Jedi.


Vai ter continuação isto aqui, assim que escutar algum absurdo, eu coloco aqui.


* Desculpas karatekas que acham que não sei nada de karate, minha faixa-preta não foi achada na lata do lixo. São 20 anos de pratica no karate, treino com um 5ºDan, a dez anos recebi o 1º Dan de um mestre 8ºDan, já fiz cursos com senseis renomados, só fiz três anos de curso de japonês. Já li tantos livros de karate, filosofia, contos japoneses, histórias sobre a colonização japonesa. A 36 anos convivo com um japonês made in Japan, passei tanto tempo na minha vida tentando compreende-lo... Tudo em vão né? Vocês dizem que não sei nada e tenho que estudar...
Isto não é o suficiente pra vocês não é mesmo?
Que pena..
Mil perdões. Gomem.

** Manga sãos os quadrinhos, gibis japoneses.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Autodidatas no karate

 
Tenho visto alguns karatekas, alguns que por sinal dão aulas e fazem blogs, que adotam o sistema do autodidatismo, ou seja, aprende o karate sem a supervisão de um sensei. Não sei porque cargas d'água preferem assim, pois bem ou mal temos muitos senseis bons por ai.

Não consigo ver com bons olhos a questão do karateka autodidata, pois sempre temos que ter uma opinião critica de alguém que esta vendo de fora, de preferencia alguém mais experiente, pode até ter a mesma graduação, mas teve ser alguém mais experiente. Não confio na capacidade de alguém poder se autoavaliar, pois quem se autoavalia pode cometer muitos equívocos e mesmo assim achar que esta fazendo o correto.

Tenho observado que algumas pessoas se poem a estudar todo o tipo de material que vem a cair em suas mãos, livros, sytes, enciclopédias digitais, filmes, programas “científicos” de TV, etc. Realmente estas pessoas adquirem um conteúdo vastíssimo de conhecimento, porem será que tudo que foi consultado realmente é de uma fonte segura? E se é de uma fonte segura, será que o indivíduo que estudou realmente entendeu o que estava sendo proposto? E se não entendeu direito, será que não poderá vir a distorcer os fatos no futuro? E se a fonte não for segura, não poderá tambem distorcer o conteúdo aprendido fazendo uma miscelânea total?

O que tenho notado é que tem surgido muitos sabichões por ai, pessoas que se dizem no direito de corrigir os outros porque: “- Eu sei, eu estudei pra isto!!!”. Porem com quem a pessoa estudou, foi com algum professor, fez algum curso, vivenciou alguma situação ou cultura, tirou algum certificado? O que afinal aprendeu, um monte de mentiras verdadeira? Aprendeu meias verdades? Aprendeu algo e acrescentou algo mais? Será que esta pessoa vivenciou e colocou realmente a prova seu conhecimento para provar que estava correta? E Experiencia, será que esta pessoa tem ou seu conhecimento se resume as bobagens que leu?





Acredito que algumas pessoas podem ter um QI alto o que as torna inteligente o suficiente para poder aprender algo sozinhas, eu sei que existem pessoas com “altas habilidades” e “super dotação” que nos surpreendem. Estas acredito que me fariam perguntas muito inteligentes, porem as questões que os autodidatas me colocaram na maioria das vezes continham erros bestas. Se existe algum karateka muito bom que aprendeu de forma autodidata, este eu ainda estou para conhecer.




Outra coisa, eu particularmente não acredito em algumas pessoas que vem ultimamente lançando conteúdos na internet, dizendo que consultaram determinados locais, inclusive dados de prefeituras em uma ilha japonesa... Não acredito nisto porque parece ser algo muito banal pegar um monte de dados de sei lá a onde e dizer que foi de tal lugar lá do Japão, sendo que é difícil negociar com qualquer órgão japonês sem que se prove exatamente o que se quer e o que se pretende. Todas as pessoas que sei que frequentaram Dojos no Japão, passaram anos lá para aprender migalhas de conhecimento. Não é tão fácil assim, lembro de casos que chegaram a meu conhecimento de estudantes de faculdade que tentaram parcerias com universidades japonesas para o desenvolvimento de trabalhos, até chegar a um senso comum entre as entidades era uma burocracia, não era coisa de dias, era de meses, as vezes de anos. Porem o que vejo são pessoas lançando teses e mais teses. NÃO acredito que em tão pouco tempo alguém lance tanta tese por ai!!!!!!! Trabalho de faculdade é trabalho de faculdade, tese é tese, tem que passar por avaliação de banca examinadora. Eu desconfio de uma tese que venha de gente que recebeu punição de federação por vestir a faixa-preta, bater fotografia e publicar na rede sem ter prestado nenhum exame de Dan. Eu desconfio de gente que afirma e poem em currículo que foi monitor de um clube quando ainda sequer possuía graduação pra isto, e o pior, é eu consultar o responsável pelo clube e descobrir que a criatura nunca foi monitor de tal entidade. Desconfio de uma pessoa que após ter tido a orientação de alguns senseis, conseguiu logo após a afaçanha de perder totalmente o credito destes mesmos senseis. Se uma pessoa mente na base, quem me diz que não mente em coisas "importantes"?

Existem pessoas muito autodidatas para terem orientação de um outro sensei mais graduado, fico pensando até que ponto isto não é orgulho por não aceitar a correção de outras pessoas. Fico pensando até que ponto o autodidatismo não é um pretexto para a criatura não ter que ficar ouvindo sempre alguém corrigindo seus erros. Assim é muito fácil saber, pois não tem ninguém pra dizer que algo pode estar sendo interpretado de forma equivocada, ou seja, tudo estará sempre correto a onde não deve estar correto e errado a onde não deve estar errado.

Eu desconfio quando a pessoa se diz mais do que é! É como diz o ditado: Quando a esmola de mais, o santo desconfia.


P.S.: Um colega karateka fez uma observação, acho bom colocar aqui. Hoje a internet nos coloca a disposição ferramentas de tradução instantâneas (google tradutor, Altavista tradutor). Isto facilitou muito o entendimento de testos escritos em outras línguas  porem são sistemas falhos na transcrição de qualquer língua. Na língua japonesa então nem se fala, as complexidades da gramatica japonesa não permitem uma tradução confiável, ainda não foi desenvolvida uma tecnologia que possa transcrever a língua japonesa com todas as suas peculiaridades, se existissem seria um programa pesado que não funcionaria em tradutores estilo "Google Tradutor". Tentar usar estas ferramentas para obter informações em sytes japoneses no intuito de achar material e argumentos para seu estudo, é um verdadeiro tiro no pé. Nem mesmo o sistema JWPce que uns e outros enchem a boca pra dizer que é bom é completo.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Karate e religiosidade japonesa

 
Eu outro dia eu li um titulo ai num blog: “A Religião do Karate”.

Não vou entrar em maiores detalhes, mas o autor afirma que o shintoismo é a religião do karate.

?????????????????????

Um dos aspectos curiosos no japão é a questão da religião: qual é religião professada no japão afinal de contas? É o Budismo, é o shintoismo? Alguns japoneses são shintoistas, alguns japoneses são budistas?

Hoje peguei minha mãe, católica, conversando com meu pai, japonês, que atualmente faz seus estudos bíblicos (mais no intuito de criticar o pastor do que de realmente se tornar cristão). Ela nunca fez muita questão de entender alguns aspectos da cultura japonesa, não sei como estes dois conseguiram se achar. Esta discussão me fez lembrar que realmente para os Brasileiros, um povo com uma cultura impregnada de influencias cristãs, fica difícil mesmo entender a espiritualidade e religiosidade do povo japonês.

Mas afinal de contas o povo japonês tem religião?

Sim e não.

O povo japonês tem uma peculiaridade com relação a religiosidade, eles aceitam tudo, ou quase tudo. Na minha opinião o japonês em respeito a religiosidade é tudo e nada. Assim como o japonês pode ir num santuário shintoista, tambem pode logo depois, entrar num templo budista, no outro dia pode comemorar o Dia de São Valentin, no outro o Natal, no outro o Tanabata Matsuri que tem origem em uma lenda chinesa. Os japoneses adoram as imagens dos "Sete Deuses da Felicidade" que incluem, entidades budistas, shintoistas e taoistas. Já vi casos em que o oratórios butsudan e kamidama dividiam o mesmo ambiente. Todo ano no Japão é criada uma nova seita (algumas estão mais para A Ceita, aceitam tudo), algumas com filosofias tão malucas que ficamos pensando se não era melhor colocar camisas de força nos membros, enfiar todos num manicômio, fechar o portão a cadeado e jogar a chave fora. Mas pode-se dizer que as religiões que mais influenciaram a espiritualidade do povo japonês são por ordem de maior influencia: Shintoismo, Budismo, Confucionismo e Taoismo. Não vou me estender demais no assunto de quais foram as influencias que cada uma destas religiões teve no povo japonês, deixarei alguns links no final do post em que você poderá consultar sobre o assunto.

Voltando ao tópico: o karate tem religião?

Já abordei um pouco do assunto em outro post, sobre significado das fotos no Dojo (As fotos presentes no Dojo). Disse que em fotos da JKA aparecia um Kamidana, um oratório Shinto. Porem nunca disse que a religião do karate era o Shinto. Afirmei que é habito dos japoneses cultuar os antepassados e que geralmente para este fim os japoneses tem em suas casas retratos próximos aos oratórios que podem serem tanto um kamidana como um butsudan (oratório budista). Ter um oratório budista ou shintoista em casa varia muito da pessoa, assim como tambem da família japonesa e da região do Japão. E por falar em região do Japão...

Qual a origem do karate mesmo?

Okinawa, não é?

O Japão é um caldeirão cultural, eu não posso, e nem ninguém pode, nem mesmo o japonês pode dizer que as manifestações culturais e religiosas no Japão são uniformes, elas de longe são. Os matsuris (festivais) por exemplo, são diferentes de uma região para outra, mudam de características de um distrito para o outro. E o que não dizer de Okinawa, um arquipélago entre a China e o Japão que teve em seu território influencias tanto da cultura, chinesa (Taiwan), coreana e japonesa? Tudo em Okinawa é diferente do resto do Japão, arquitetura, vestimenta, manifestações culturais, língua, musica, religiosidade... Enfim, em alguns aspectos Okinawa apresenta muito mais influencia da cultura Taiwanesa do que da Japonesa. A religiosidade em Okinawa é bem peculiar da região.

Eu particularmente não sei qual era a religião que o Mestre Funakoshi praticava, nos livros que li a respeito de sua vida esta questão não fica clara, sei que era um homem muito erudito e que leu muitas escrituras chinesas confucionistas (que fazia parte da educação da classe guerreira). Acredito que o kamidana que fica no Dojo da JKA (Dojo de Shotokan) esta relacionado ao Shintoismo Estatal. Na época que o karate saiu de Okinawa (era Meiji) e foi para o resto do Japão o Shintoismo era considerada religião oficial do Japão (era Religião do Estado*) e seu culto chegou a ser imposto. Sabemos que o sensei Funakoshi fez várias adaptações no karate para que o mesmo fosse aceito no resto do Japão, inclusive mudando nomes de katas, modificando os ideogramas da palavra karate, tornando-o menos Okinawano. Tudo que fizesse nem que seja uma minima alusão a outras culturas que não fossem consideradas "legitimamente japonesas" não eram bem vistas pelo povo japonês na época (povo totalmente bitolado e manipulado pelo governo militarista, nacionalista). Como falei em outro post, o BUDO foi uma adaptação do Bushido, uma ideologia nova para ser usada na formação moral do povo japonês (durante a era Meiji e na era Showa até o final da 2ªGuerra).

Outra questão tambem é: o que se usa nos Dojos de outros estilos, um Botsudan**, um kamidana***, ou nenhum dos dois, mas sim algo similar na cultura Okinawana como o GUANSU ou TOTOME? Existe um estilo de karate, o Isshin-ryu, em que o simbolo do estilo é uma Deusa (Mizugami). O Isshin-ryu saiu direto do Japão para os EUA no pós guerra, por isto não sofreu influencia do governo nacionalismo japonês. Lembro que o Karate (ou Tode) tem muitas de suas raízes no Shanfa (Wushu chinês, Gralha Branca ou Shaolin), já vi em muitos documentários sobre o karate de Okinawa em que se faziam rituais aos antepassados de forma parecida aos rituais praticados na academias de Wushu na China.


Fotos de um altar okinawano (Totome ou Gansu)


Dizer que o karate tem religião ou é uma religião é um tanto leviano!

Ainda mais que o povo japonês tem esta característica peculiar de aceitar varias crenças religiosas e de fazerem estas mesmas religiões de origens diferentes coexistirem harmonicamente. Portanto nem eu, nem mesmo um japonês podem afirmar que a religião do karate é o Shintoismo.

O que é certo afirmar é que um costume geral do povo japonês, independente da região, é cultuar os antepassados, prestar homenagem aos que já estiveram entre nós e que são responsáveis por nossa atual existência. É isto que se leva em consideração quando se cumprimenta as fotos dos mestres no Dojo.



Para saber mais da religiosidade no Japão consulte os seguintes sytes:







Para saber mais da Religiosidade na ilha de Okinawa (Utiná ou Uchina):



Para saber mais sobre o Xintoismo estatal:



* O Xintoismo Estatal foi uma ideologia promovida pelo governo japonês desde a era Meiji até a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. Este sistema foi dissolvido pelo Comando Supremo das Forças Aliadas (EUA). Esta ideologia foi não só aplicada nas forças armadas mas como tambem no sistema de ensino e consequentemente tudo que envolvesse alguma didática, tudo tinha que seguir esta ideologia.

** Butusdan



















*** Kamidana


















PS.: Gostaria que algumas pessoas entendessem o que foi este período de Nacionalismo japonês, seria todo o período da era Meiji e parte da era Showa. Foi um período que a nação japonesa se abriu para o mundo, se modernizou e se ocidentalizou. Foi um período de grande crescimento industrial para o pais. Foi um período em que os governantes japoneses tentaram acompanhar o expancionismo de outros países como Reino Unido, USA, França, etc. Até certo ponto isto foi bom para o povo japonês, troce progresso, por outro lado houve um preço. Só pra variar um pouquinho, quem mais se beneficiava com isto eram os ricos e nobres o povo até certo ponto se beneficiou, os pobres, continuaram pobres, tanto que alguns saíram do Japão e foram para o Brasil, EUA. Toda esta expansão exigia súditos fiéis, patriotas que fossem até o inferno por sua nação, esta é uma das origens do nacionalismo japonês, esta doutrina imperou até o final da segunda guerra mundial.  Se um império quer expandir teremos que ter soldados, uma juventude, um povo disposto a entrar num navio de guerra e invadir outras nações, este povo precisa de uma disciplina, de uma doutrina (BUDO entra ai), de princípios, de uma identidade nacional (Xintoismo estatal), de um ídolo (o Imperador), de um orgulho (uma nação invencível) . Neste contesto o karate saiu de Okinawa e entrou no Japão. Você sendo um humilde professor de primário, introduzindo sua arte numa nação nacionalista, o que faria? Iria contra? Se adaptaria? Não digo que Funakoshi e outros mestres fossem nacionalistas, talvez só tenham se inserido no contesto por não terem outra opção. Funakoshi e seu filho chegaram a desenvolver técnicas de ensino de karate para o exercito e marinha japonesa (Ten no kata Omote), sim eles treinaram jovens para ir à guerra. Pouco importa se Funakoshi era de acordo com o nacionalismo ou não, se fosse contra o governo não apoiaria o karate, na verdade todo o povo japonês era bitolado. Porque os USA fizeram questão de abolir este regime e acabar com qualquer um de seus resquícios? Hitler tambem queria uma nação nacionalista, unica, soberana, invencível, os japoneses tambem queriam, tanto que se aliaram aos alemães e receberam o titulo de "Arianos Honorários". O Nacionalismo japonês foi tão cruel com os povos que subjugou quando o Fascismo ou Nazismo, em requintes de crueldade eles se equivalem. Nacionalismo japonês foi cruel com seu próprio povo, pergunte pra quem vivenciou isto, pode perguntar para meu pai. Os Americanos, foram bacanas? Basta lembrar de dois experimentos que os USA resolveram testar (Litle-boy e Fat-man). Quem lê o livro biográfico de Funakoshi pode notar que ele não fala detalhes deste período, nem poderia, a guerra levou muitos de seus alunos, levou seu único filho homem, levou seu Dojo, levou sua esposa.